Este pequeno conto foi originariamente publicado no livro 14 | Novos Escritores Brasileiros, pela editora Mombak (beijo, Mirna Queiroz), no Brasil por volta de 2015/2016. Porém, a sua origem se deu numa oficina literária da Adriana Lisboa, uma de minhas escritoras favoritas (e das mais fofas), oficina na qual participei durante alguns meses nesse período, onde conheci escritores que hoje já estão na mídia, ganharam prémios e por aí vida à fora. 

Eu não sei. A minha vida dá tantas cambalhotas. Vira do avesso e passa a ter uma história em outra dimensão — quase sempre incomunicável com as anteriores.

No entanto, volta e meia recebo uma visita desse universo paralelo. Visitas que não apertam as minhas mãos: dão-me sorrisos, provocam-me sorrisos. Ontem recebi uma mensagem de WhatsApp da Alessandra. Há anos ela me escreveu elogiando o conto abaixo. Ontem, passados esses anos, escreveu-me pedindo um link para que ela pudesse recomendá-lo a alguns alunos. Sinto-me lisonjeado. E feliz porque as coisas que fazemos às vezes podem perdurar no tempo e se transformarem em doses homeopáticas de alegria. Para sempre. 

O Meu Nome é Ted

O meu nome é Ted. Só consigo conversar dentro da minha cabeça. Vivo com o Quim. A mãe dele chamava-o de Joaquim Saraiva, mas só quando estava nervosa. De resto era só Quim mesmo. É como o chamam em todo lugar. Quando vai ao bar beber, por exemplo. Ele bebe muito. Antes era apenas nos fins de semana, mas depois que a mãe morreu passou a beber todos os dias. 

Sigo-o pelas ruas. Sinto uma coisa que me faz ir atrás dele. Não sei o que é. Minhas pernas movem-se, meu corpo inteiro diz vai e eu vou. Já tentei perguntar dentro da minha cabeça sobre o motivo, mas nada. 

Na ida para o bar o Quim anda depressa. Sempre me esqueço do que vai acontecer, que é o mesmo que acontece todos os dias. É outra coisa que não entendo: esqueço muito rápido. Às vezes ele briga comigo e fico triste, mas em seguida já não me lembro do motivo. Sei que ele brigou, mas não sei mais o que fiz e se eu tinha razão no fazer ou não. Então acabo por esquecer tudo. Não fico triste à toa. 

Gosto muito do Quim. Dentro de mim sei que gostava mais da sua mãe, mas o esquecimento do que fazia essa diferença pesa a favor dele, creio eu. Por outro lado, como a mãe morreu, só há duas opções: deixo-o ou sigo-o para todo lado. Deixá-lo, disso tenho certeza e não me esqueço, seria a opção mais triste. É um bom homem. Melhor quando não bebe, mas se está bêbado entendo-o: é como eu: no dia seguinte já se esqueceu de tudo. Não é culpa dele. Eu também não sinto culpa quando não me lembro do que fiz. Deve ser por isso que todo dia ele volta ao bar: para fazer tudo de novo e ver se dessa vez consegue se lembrar. Mas ele esquece. Quem sabe beba por isso mesmo. Deve ter se acostumado a esquecer. Esquecimento vicia, como tudo o que não controlamos, como tudo o que nos descontrola. Mas não tenho certeza. Também não encontro essa resposta dentro da minha cabeça. 

Não consigo tirar a conversa de dentro de mim. Quando tento saem apenas grunhidos ou sons de tosse seca. Ou sons prolongados, se estico o meu pescoço para o alto. Minha comunicação com o Quim se dá assim, mais por gestos e olhares. Quando o Quim diz «sai», sei que me quer longe e então vou. Pode estar frio do lado de fora de casa, mas vou. Mas quando eu tento dizer-lhe algo é raro que me entenda e então ele não faz nada além de repetir «sai sai sai».

O Quim já vem. Está no caixa do bar pagando a conta. Vejo pelos vidros embaçados que ele tira notas amassadas do bolso e dá para a Dulce. Quando vai para o bar ele anda depressa e sempre na mesma direção. Na volta é diferente. Demora e custa muito a andar. Fala sozinho por todo o caminho. Gesticula. Às vezes pega numa pedra e joga-a em mim. Depois chora. Entendo. Também tenho vontade de chorar, mas não consigo. A tristeza vem, mas logo em seguida afunda novamente no esquecimento. Queria explicar isso ao Quim: «Deixa a tristeza afundar e perder-se antes que o choro chegue» Não consigo.

Seguimos pela estrada. O Quim vai pelo canto da calçada, apoiando-se nos muros. Alguns carros passam muito perto, principalmente nas curvas. Eu paro quando um carro vem. Espero. O carro passa, eu vou. O Quim nunca para. Não percebe que está correndo perigo. Fala sozinho e chora. Desta vez chora mais, não entendo. Nessas horas acho que conversar apenas dentro da cabeça não é tão ruim. De que adianta ele falar sozinho pela estrada? Também grita, faz gestos com os dedos para os motoristas. 

Estou todo molhado. Chove miúdo e está tudo cinza-escuro. O Quim já escorregou três vezes. Está sujo de lama, encharcado. O cabelo dele, quando está seco, chega nos ombros, mas assim, molhados, minguam colados no pescoço. Sua cabeça fica mais redonda, como a barriga, como o seu corpo todo. O Quim está velho. Tem pelos brancos na cabeça, no peito, na barriga, muitos pelos que vão dizendo a sua idade. A mãe dele morreu quanto já só tinha pelos brancos. A vida é da cor dos pelos pretos. O branco é a morte, contagem progressiva para o fim. 

O Quim caiu. Tem sangue na testa e no cabelo. Tem sangue escorrendo no rosto e um pouco pelo pescoço. Os pelos brancos desapareceram. Agora só há preto e vermelho. Tento lamber seu rosto, mas ele se contorce tentando se levantar e não consigo. Ouço ainda ao longe um motor. Grito, berro, faço meu som de tosse seca, sou inteiro sons ásperos de urgência, mas com a preocupação de se pôr em pé ele não percebe o caminhão. Grito, grito muito, depressa, rouco. Sinto meus pés enfiados na lama, a terra empurrando a pele entre os meus dedos, finco as unhas no chão e arreganho os dentes em berros. Sinto o gosto da chuva na língua. Não adianta, tenho que fugir. Não quero! Quero ficar com o Quim, preciso avisá-lo do caminhão! Mas meu corpo não me obedece. Da mesma forma que me obrigava a segui-lo, agora me obriga a correr, a saltar para trás e depois para o meio do mato enquanto sinto sair da minha boca um gemido igual ao de quando apanho. 

O Quim não se mexe. Está estendido no chão, sujo, encharcado. Muitas pessoas cercam-no. Não tem mais pelos brancos, apenas vermelhos. Chove, mas está deitado, torto, sobre uma poça de sangue. Não suporto o cheiro. Geralmente o odor me atrai e sinto a boca salivar, mas hoje não. O cheiro me afasta. 

Dois homens de branco estendem ao lado dele uma cama também branca. Um pega por debaixo dos seus braços, outro pelas pernas. Jogam-no na cama e a cama muda logo de cor. Guardam o Quim dentro de um carro da cor de sangue e luzes. Corro e tento entrar no carro, mas um homem de branco grita: sai pra lá, vira-lata! Chuta-me. Todos me chutam. Corro e me enfio atrás de uma lixeira. Olho de longe. Levam o Quim embora. O vermelho é a cor do adeus.

As pessoas se afastam e aos poucos fico só. Não tenho para onde ir. Com quem? Vejo umas escadas. Três degraus na frente da porta de uma casa. Deito-me ali. Enrosco-me. Porque não me esqueço de tudo depressa como sempre? A cena não me deixa. Está frio, estou molhado, tenho os pelos de outra cor. Nem vida, nem morte, nem adeus: sou da cor das escadas de cimento úmido, cor de quem se perdeu. Tento conversar dentro da minha cabeça, mas nem eu me entendo mais. Vou me calar. Se me encolher mais um pouco o frio vai diminuir. Chove muito agora. Chove para sempre.

* Fotografias: José Roldão | do projeto autoral: Alvarenga - Capital do Mundo