Estar só

Diziam que a doença do século passado (e continuam a dizer deste, acho eu) era a solidão. E pode até ter sido, apesar de me parecer um tanto estranho que o fosse. Mas há uma outra vertente da solidão — na verdadeira acepção da palavra, creio eu —, que é o ‘estar só’. Em sentido contemplativo. Ou simplesmente o estar a exercer o ócio — esta viável contradição para os gregos. Por períodos curtos ou longos, sem companhia. No entanto, parece-me que quanto mais se exclui a possibilidade desta vertente da solidão, mais a outra, que fere o espírito das pessoas, torna-se comum e letal. E agora? pois se pergunto silêncio, para onde foste? ele não me responde — para sê-lo. Abster-se de o evocar para que ele apareça, se calhar é assim: o problema deve ser o excessivo questionamento, essa inquietação constante que reside no mais íntimo do ser humano e às vezes decide vir aqui fora passear e nos chatear a cabeça. Deixar-se estar. Esta não ação que nos incomoda imenso e nos leva a agir feito destrambelhados. Um não agir tão necessário. Além do mais, aquele que por vezes não cede ou diminui a tensão um dia arrebenta. E então, de qualquer maneira mas mais perigosamente, estará só. Talvez em definitivo. Mas aí então será já um silêncio absoluto. Será demais. Inumano. Com este é preciso ir se acostumando aos poucos. Com aquele.

A mulher catando cavaco

405447_10150497912732844_929300810_nEu, o Farruco e o Anjo da Guarda sentados na varanda dos fundos, a ver a paisagem. Lá em baixo, na estrada, surge uma mulher. De repente, ela tropeça, sai catando cavaco por uns cinco metros e quase cai. Mas retoma o equilíbrio e segue adiante. Eu, como do meu costume, imediatamente escangalho-me a rir. Olho para o lado: o Farruco e o Anjo da Guarda estão a me olhar com espanto e seriedade nos olhos. Digo-lhes não fiquem aí a morrer de inveja por eu ser humano. O Farruco então arqueia uma sobrancelha em desdém. O Anjo da Guarda não. Nem pose. Voltamos então a olhar para a paisagem, como se nada fosse. 

De mim para mim mesmo

Falar comigo e depois me ouvir em pensamento. Quem é que me responde, quando faço a mim mesmo uma pergunta? porque há sempre uma resposta, e às vezes diferente da minha opinião de antes de a ouvir — de mim mesmo! Vai saber? Dizem que há em nós um «eu» mais profundo e mais centrado que nos contém — ou será que nós a ele? Perguntas. Mas vai ver que é isso. Certamente eu sou aquele que pergunta, independente de quem ou de onde vem as respostas que «me dou». Tem sempre mais a ver com o ser humano, a dúvida. Espera… Mas quem será que me respondeu a esta, se antes era apenas uma pergunta ainda sem resposta e agora já não?

Uma conversa sobre brasileiros em Portugal

Faz algum tempo, eu falava com um senhor que tinha acabado de conhecer na rua e então ele veio com as perguntas e exclamações de praxe:

— O que estás a fazer em Portugal? isto aqui está uma tristeza. No Brasil é que está bom.

— Foi o destino que me calhou, fazer o quê?

Então expliquei-lhe por alto os motivos das decisões que às vezes temos de tomar por causa das circunstâncias. Enfim. Mais para adiante na conversa, nós já muito à vontade um com o outro, ele diz-me:

— Vou te fazer uma pergunta. Sejas sincero.

— Diga.

— Trata-me por tu, por favor. Olha, vamos ali ao café. Tomamos algo.

Tinha um café a cem metros de onde estávamos. Chegamos, sentamos à esplanada. Dois cafés, por favor, e um copo d’água.

— Mas diga, ou melhor, diz-me lá, a pergunta.

— Conheces algum brasileiro que tenha vindo para Portugal e tenha conseguido vencer na vida por aqui? Algum que viva bem e mais descansado. Brasileiro, homem. As mulheres têm lá seus meios de conseguirem um português enraizado e com algumas posses; mas um brasileiro, conheces?

Para o distrair, enquanto fazia a minha pesquisa interior de dados, pus no rosto um olhar enviesado. O café chegara no intervalo exato, que era o da espera da minha resposta. Dei um gole, saquei de um cigarro, acendi-o, soltei o fumo, enquanto linhas e linhas de comando cerebral passavam aceleradas diante do meu espírito à procura de um nome qualquer.

— Assim, de repente, eu não me recordo de nenhum.

— Nem te vais lembrar, pah! Eu só conheci brasileiros que trabalhavam em empregos temporários ou em funções mais básicas, mesmo que tivessem estudos e essas coisas. Pensa bem? Vivem em rotatividade nos empregos, de um para outro, sem parar. Ou são vendedores porta à porta, ou são funcionários em fábricas ou oficinas de automóveis, mas dificilmente conhecerás um brasileiro que ganhe mais de mil euros por mês. Exceto, claro, os que vêm para cá e têm família com empresas ou em órgãos públicos. Mesmo assim…

Passei-me. Eu já devia ir no terceiro cigarro, pois ele foi falando aos poucos, como se quisesse me dar tempo para pensar e argumentar contra ele, mas certo de que eu não teria hipótese. No fim, depois de se levantar e pagar os dois cafés, arrematou:

— Vai-te embora para o Brasil. É o que fazes melhor. Eu vivi vinte e seis anos no teu país. E sabes de uma coisa? Gosto mais dos brasileiros que dos portugueses. A sério. Sempre fui muito bem tratado lá, mesmo sendo imigrante. Ganhei dinheiro. Tive de voltar por causa da família, mas por mim tinha ficado lá. E sabes o que ouvi outro dia de um vizinho meu que tem uma empresa de calçados?

— Não.

— O vizinho disse-me: «Ontem apareceu-me aqui um brasileiro a pedir emprego. Achas que vou dar trabalho a um desses que vêm para cá roubar vagas de trabalho aos da terra? Prefiro empregar um velho idiota, mas português, que um brasileiro. Que voltem para a terra deles, pois nem deviam ter vindo para cá» É assim. Não sempre, acredito; mas é.

Eu já tinha ouvido coisas semelhantes em cafés, sem que soubessem que havia um brasileiro sentado na mesa ao lado. E respondi que sim, eu sabia. Ponderei: o mais curioso era que eu inclusive havia nascido no Brasil porque a minha família, portuguesa, tinha ido para lá ganhar a vida. Muitos voltaram e trouxeram os filhos consigo; ou estes vieram mais tarde, como no meu caso. A minha situação era um pouco mais cômoda, pois ao menos não havia essa rejeição ou discriminação nos lugares onde me conheciam como sendo membro de uma família portuguesa. Ou no caso das pessoas que me viam como um ser exótico, da terra da alegria sem fim que vinha dentro de garrafas grandes de cerveja aguada; do samba no pé desde o berçário; do sexo fácil, livre e sem limites com mulheres sensuais que andam meio despidas pelas ruas; do futebol como dom dispensado por Deus a todas as crianças brasileiras mulatinhas e pobres; e por aí a fora; e então expressavam o desgosto de não terem nascido num lugar tão bom e com gente assim alegre e de bem com a vida. Eu concordava imediatamente: quem me dera ter nascido em um lugar assim também, onde fica? Eu também quero ir para lá! Mas é inútil a tentativa de desmistificação. O Brasil, para muitos portugueses, é uma espécie de paraíso. E claro, um paraíso onde só existem brasileiras.

Fiz questão de dizer-lhe:

— Mas sou muito bem recebido, e muitas vezes justamente por ser brasileiro. Sempre puxam conversa. Veja o senhor, por exemplo. Nunca nos vimos e estamos aqui a tomar café e a conversar como se nos conhecêssemos há muito tempo. Posso dizer que ser brasileiro sempre me pareceu uma vantagem, no meu caso.

— Ora essa, eu não disse que sempre acontece assim! Há casos e casos. Eu falava da questão do dinheiro, do trabalho. Nem só de convívio vive um homem!

— Pois. Entendi.

— Adeus, meu amigo, tenho de ir embora. Mas ouve o meu conselho: volta para a tua terra. Ou transforma-te no primeiro brasileiro que eu conheci e que se deu bem — como vocês dizem — em Portugal. Então, se isso acontecer — espero estar vivo até lá — pagas-me um café e ficas a rir da minha cara até dizer chega.

Despedi-me. Não sei se com uma ideia ou se um desafio em mente.

Não chores esta noite

Não chores. Não esta noite, minha querida. Logo virá aquela manhã que tanto esperas e este dia se chamará passado. Não tarda. Enxuga o rosto. Acredita. Tem calma, deixa esta hora suspensa. Mas não o teu grito contido. Não chores, grita de uma só vez. Dou-te uma frase forte e cheia do que tenho: eu gosto de ti sem motivo. Deve ser o teu jeito, a tua pressa, a postura do teu corpo adiantado para cima do perigo, o olhar que desvias para o chão quando lembras-te do que vens passando. Olha, não sei. Não vertas mais uma lágrima sequer. O preço que se paga por manter as feridas abertas é tão alto. Fecha-as todas. Põe as tuas mãos em cima com força. Estanca as imagens que ficam a passar e a passar na tua cabeça. Eu te ajudo com as minhas sobre as tuas mãos. São tuas, toma-as. Vai doer, sim. Quem disse que não? Eu sei que tens medo do futuro, afinal ele parece estar sempre para além da linha do horizonte — sempre além, sempre! Isso. Grita! Esvazia as palavras. Parece sim. Concordo contigo, meu carinho. Nem imaginas que estou aqui, a abraçar-te na imaginação, a pôr a tua cabeça no meu ombro e a dizer ao teu ouvido não chores, respira fundo que o teu dia não tarda. Tens os olhos cansados, pois custa tanto. Só tu sabes. Tens o cabelo desarrumado (foi do meu carinho? Eu sei que não. Antes fosse.), tens a blusa entreaberta; onde foi parar o outro brinco? Eu procuro, deixa. Agora olha para mim: se sofres o tempo passa numa lentidão imensa, quase eterna; e a tua alegria quase sempre um segundo, não é? Deixa esta hora suspensa depois do teu grito e aguenta mais um pouco. Primeiro amanhecerá no mar, depois na tua pele. E da pele para dentro é um instante.

(17 de Março de 2012)

Então fica.

velaterapiaNão te aflijas, menina. O tempo certo para todas as coisas é o do inevitável. Pensa. Foi sempre assim. Fazes planos, ensaias todos os gestos diante do espelho da imaginação, decoras todas as frases para o falso improviso, mas na hora do real tudo te acontece ao revés. Vivemos em dois mundos, o da imaginação e o da presença. Mas não era assim, fomos nós que os separamos para que nos fosse mais fácil evitar as feridas do mundo concreto. E então nos ferimos a fundo, sofremos de uma doença silenciosa, sem dor, sem sintomas, mais mortal por vir a galope na surpresa e atropelar-nos com um só e abrupto golpe. Mas não te aflijas. Repara que as melhores coisas sempre te aconteceram sem a tua intervenção consciente, e exatamente quando era menos provável. E tentaste tanto, para quê? para atrapalhares o destino? Eu sei que o destino só se revela quando já não nos adianta sabê-lo, mas é a nossa confirmação. Para o bem ou. Por isso, não mexas mais um dedo até que o mundo reclame um gesto teu. Por enquanto. Quando não se sabe para onde ir, o melhor é estar. Então fica.

(18 de Maio de 2012)

Palavras azuis, como vos vou dizer?

Essa constante ameaça de chuva. Está assim, esta tarde de domingo. Tarde fria. Então fui desencantar um casaco já há muito posto em hibernação e meti-lhe os braços e as costas para dentro como quem vai figurar num filme em preto e branco. Estou vestido apropriadamente, mas para outro imaginário. Sem falar que tenho um monte de palavras na gaveta a resmungarem o atraso sazonal. Palavras de outras cores: laranjas amarelas vermelhas azuis. Saltem para dentro e sosseguem que ainda não chegou a vossa vez. Eu bem que queria mas. Olhem para este céu? como eu vos vou dizer?

Desacerto entre o sagrado e o profano

Tocam os sinos no campanário. Ou melhor, uma gravação. Dá as horas. Mas nem sempre batem com as horas deste mundo. De qual será? o de tanta gente. Já ouvi de uma senhora, no café: «Eu acerto o relógio conforme os sinos da igreja, quero lá saber se ficam certas com as horas que passam na televisão.» E explicou que se seguisse as horas televisivas chegava atrasada à missa, como já lhe aconteceu duas vezes. Um desacerto entre o profano e o sagrado. Eixos diferentes, fusos horários distintos. O tempo da religião. Quem nunca se atrasou? Ainda assim, sorte de quem se atrasa no religioso. Porque o inesgotável do seu tempo resolve-se na eternidade. Já o profano. Aí não. Nele o tempo só tem uma direção: a dos olhos de quem dá adeus. De eterno, no profano, só o nunca mais: é sempre para sempre. Sempre.

A palavra

Mondrian,_Piet_-_Arbol_Gris_-_1912 - ARTE ABSTRATA IIOs nossos atos mais importantes são os mais difíceis de explicar aos outros. Toda a cadeia de sentimentos e vontades que culminam num ato decisivo, mais o contexto e as circunstâncias, como reduzir tudo isto em palavras? As palavras têm poder — repetimos. O mundo foi criado pela Palavra, afirma a Bíblia. Mas quanto de poder existe em nós, para trás da boca? A força de uma palavra, um gesto que à acompanha. Quem os sabe usar não como instrumentos, mas como extensões do espírito? Quem saberá que o seu é um eco distante do Verbo mas que ainda reverbera em nós desde o início dos tempos? Sê homem — dizem-nos nossos pais quando somos irresponsáveis. Mas sê-lo é ainda tão mais do que sabemos. Quando sabemos.

Do invisível

raindrops_gotas_de_chuva_450Chuva quase invisível. Só depois de fazer força e torcer os olhos é que percebe-se quão espaçosa resolveu ser nesta tarde. Juntando uma gota e outra, a chuva contou-me: o invisível absoluto não existe. Consenti, pasmo de sabedoria natural. Para que se chame invisível é preciso que alguém tenha ao menos vislumbrado um pouco de uma sua qualquer visibilidade. Um pressentimento, no mínimo. Se o invisível permanecesse sempre invisível não haveria como nomeá-lo ou sabê-lo. Não seria. E então teríamos de o chamar de nada, mas o nada já tem nome e não seria inteligente esperar que o nada viesse a se mostrar, quando não o pode justo por lhe faltar poder, que é um dom para o que existe. Esperamos a manifestação do invisível, ansiamos que se venha mostrar de um momento para o outro. Que o deixe de ser, já que não o é de todo mas só de momento. O que nunca se mostrou, não há-de se mostrar jamais. Por isso, o invisível deve ser um estado de repouso daquilo que pode tornar-se visível mas não o faz de todo e de uma só vez para não nos confundir e explodir a mioleira. Então chove. Assim, espaçosamente. Vou no caminho que vai dar a Trancoso, sem guarda-chuva, por entre os seus espaços imensos e quase sem me molhar. Visível para quem se cruza comigo e me vê, invisível para quem nem me sabe a ir. Fora eu mesmo, quem terá razão sobre mim?

Tantos anos

envelhecer-001Tantos anos. E a senhora aqui, no café, a explicar com a voz rouca e cansada a um senhor que já não via há algum tempo: «Estive mal, mas ainda não foi desta vez.» Como deve ser? essa certeza de que já não há muito tempo. Não há. Todos sabemos. Mas virá a vez em que a senhora já não o poderá explicar. A vez que será. E então seremos nós a dizer: «Foi desta.» E nesse dia serei eu a lembrar das vezes que não foram e que são ainda as minhas. O que posso fazer? quem pode? Ninguém. Mas vou tentar empurrar o nosso futuro para mais adiante. E o de tanta gente. Quem me dera. Para longe. Até não o poder nem mais imaginar.

Da imaginação, só um pouco

Domingo de sol, o canto dos pássaros e o calor suave e sem vento, mormaço leve. Resta pouco trabalho para a imaginação: só a ligeira invenção da sombra sob uma mangueira e eu e o Farruco estirados na relva lendo nuvens. E nossos olhos que se fecham, e que cedem mas resistem, só mais um pouco, aguenta firme cãozinho. Um já quase nada e descansamos de inventar. E sonhos.

Gravações da rodovia

fuzilamento casasola12Tantos vestígios que vou deixando para trás: gravações de músicas feitas no Brasil; as de Portugal; as do Peixe da Lua; eu e o violão; gravações da voz de familiares, amigos; concertos; cartas, crônicas, contos, livros iniciados; blogs, sites; fotografias; memórias de mim nos outros; tanto. Há pouco, à procura de um arquivo no meu disco externo, dei com um backup do Brasil. E nele encontrei três arquivos de áudio com gravações da rodovia que passa a uma quadra da casa onde cresci. Sons que vêm desde a minha infância e que não me largam, que me fizeram a mim no que fui e ainda me fazem no que vou sendo. Em dois desses arquivos há também o latir de vários cães numa madrugada de revelação, e o da rodovia ao fundo. Lembro-me de os ter gravado para os pôr em alguma crônica que falava daquele momento, daqueles sons, daquela aparição da eternidade que me calhou naquela madrugada à janela. Na terceira gravação, mais longa (quase 4 minutos), há só os sons da rodovia. Gravei-a uns dias antes de vir morar em Portugal. Eu queria trazer a rodovia comigo, para o futuro que nunca sabemos. Gravações que fixaram um passado. Quando meti-as a tocar… Estremecimento. Foco tão intenso de luz a iluminar repentinamente um ponto exato no labirinto da minha memória. Um cômodo fechado há tanto e de repente janelas e portas arrancadas e paredes que foram à vida como se desmanchadas por um furacão. Eu ia escrever sobre as sensações que se desencadearam e o que em mim estalou feito disparos de revolver num alvo estático, como se eu num paredão de fuzilamento. Mas os tiros devem ter acertado em cheio as minhas mãos. E estou sem elas para mais que isto.

Chá Verde e Pão de Ló

Chá Verde e Pão de Ló que a mamãe fez. A chuva que aquarela em tons de cinza, gota em gota, a paisagem (ou os vidros?). Silêncio. Costas que vão de encontro à cadeira. Mão que joga o cabelo para trás. Um suspiro, enquanto os olhos ao teto. Estão encerrados os trabalhos desta tarde.

Tralhas

O tanto de coisas inúteis que juntamos. Estive a arrumar as últimas tralhas deste apartamento e foram dois sacos grandes cheios delas para o lixo. Fiquei só com o meu essencial, que é o que dá para levar agarrado às costas. É o que vou levar amanhã. E hoje cai esta chuva de consternação. Eu, da varanda, em cumplicidade, aceno para a natureza imprensada nas vagas dos edifícios. Volto para o contrário, onde nem edifícios há, onde a vida não precisa pedir licença. O meu cabelo feito o vento.

Qual o significado?

Ariadn7Não parece verdade, juro. Arrumar coisas de modo a facilitar um desarrumo ainda maior. Depois de tanto tempo. O que será que isso significa? no todo de uma vida. Não sei. Não que eu esteja triste. É diferente. É não saber o significado. Para quê? Será que mais valia. Não, isto não. Ter os braços abertos. Não foi sempre assim? E sempre valeu a pena. No entanto eu só o pude perceber na vez do futuro. Tempo. Agora, mais que das outras vezes, espero a transfiguração do presente no que há de vir a ser um dia para a minha memória. Quando me for possível olhar para trás até quase me perder de vista no que fui. Mas tenho conseguido manter a maneira de viver que escolhi para mim: braços abertos, olhos atentos, sorriso de lado, ser o mais reduzido número de eus que me for possível. Tão difícil viver. Mas que coisa: vive-se bem nessa dificuldade. Destino, destino. Vou-te cobrar o sentido disto tudo. Podes crer. Quero a minha unidade esclarecida. Ao menos para mim, que é a quem importa. Aos outros peço imensas desculpas, mas tanto faz. Diante da minha morte será só a minha mão a segurar no Fio de Ariadne, o fio que me vai fazer saltar do labirinto em que me meti uma vida inteira. Com muito gosto.

Quase anoitecer

Azul do quase anoitecer, tão belo. Paz que faz esmorecer as horas do dia em silêncio meditativo, hora de não fazer. Tempo para a quietude e a melancolia. Deve ter sido durante esse momento diário que as mais belas obras foram recebidas do eterno para serem dispostas na materialidade. Homem, receptáculo estreito. Onde ele há-de pôr a partícula do infinito que lhe coube? No mundo, só pode. Para que lhe sobreviva além da temporalidade que lhe foi calhar. Um pouco, ao menos.

Entardecer

Tão belo, o entardecer. Hora incansável de deslumbramento. Espanto diário, minha comoção quotidiana. Esplendor metálico, ouro líquido a desmanchar dia após dia. Sol, sol. Entendo perfeitamente o motivo de te terem atribuído a divindade desde o início dos tempos. O tempo. Foste tu, astro rei, que o puseste a contar. Para o nosso bem. E também não, sem querer.

Hiato culminante, tempo analgésico.

Um ciclo termina; outro, após uma leve pausa, recomeçará. Deve ser mesmo assim. Ponho-me a pensar no sentido que um ano possa ter no contexto de uma vida inteira — sempre inteira, a cada dia acrescentado. Deve ser isto. Dia após dia. Cada vez mais acredito que esse sentido, seja ele qual for, só é percebido aos poucos e, ainda assim, tempos depois. O presente precisa tornar-se passado para só depois sentir-se seguro para engendrar futuros. Ruminação da vida. Estou entre dois momentos. Hiato culminante, tempo analgésico. As escolhas são todas minhas. Afinal, a trama da nossa somos nós que traçamos — sempre, mesmo sem saber. Minha humanidade agradece. Pois chamo de meu, o meu futuro. Chamo pelo meu nome, em alto e bom som. Sem medo.

Olhar para o impossível, sempre.

O impossível. É para lá que levamos os nossos olhos. O possível esgota-se, alcança-se, mas o homem precisa ao menos pressentir alguma impossibilidade. Para querer ir. Só então ele consegue, às vezes. Depois ele procura um outro impossível, para ir sendo homem aos poucos. Aos poucos, até um dia não poder mais. O último dia, se for mesmo homem.

O meu amanhã chama-se possibilidade

7d3e554fb1c85f9d9f56d2f1a123j56c0O apartamento vazio — um silêncio cheio de promessas. Só. Eu. Até as cortinas da sala reaprenderam a dançar — par para o vento que hoje veio fazer música nos sinos dependurados na varanda; canção de paz, de fechar os olhos em êxtase para depois os abrir com o espírito ainda dormente. O meu amanhã chama-se possibilidade.

Em Alvarenga

IMG_20130504_203530Fim de semana na aldeia, finalmente. Alvarenga — digo eu, e antes de mim tanta gente — é a Capital do Mundo; então, aqui, a natureza diz coisas muito a sério. No entanto, a seriedade do real é sem artifícios. É pura, a mesma linguagem desde a Criação. Aqui, em Alvarenga, a natureza não se cala. E eu sou só ouvidos. E olhos bem abertos. De espanto.

Quando for a tua hora, evola-te.

i1a189Primavera, ainda não adormeceste? Deves ter os olhos abertos de insônia, é o teu olhar que esquenta esta noite. Tenho todas as janelas de braços abertos. Entra. E não te acanhes, sê bem vinda. Ainda não senti o teu afago no meu cabelo, os teus dedos de vento. Quando for a tua hora, evola-te. Deixa tua idade passar, cresce em esplêndido e luminoso Verão. Enquanto nesta tua linda e florescente juventude, quero apenas ver-te. E também sentir o teu perfume, num qualquer descanso para a vista. Sim, pois se me fixo em uma só forma de beleza causo em mim um imenso desperdício de sentidos. E eu tenho tantos. Não o bastante. Nunca. Mas isso, ninguém. 

A cidade não dorme

SEGREDOAcendo um cigarro à janela da cozinha. Os prédios, as ruas, a rotunda. Um carro passa e arranha o alcatrão. Um carro branco, para mais intenso contraste. Bato as cinzas, travo no fabrico de mais, o fumo espalha-se, eleva-se, desmancha-se. Duas janelas acesas à distância de um edifício. Quem sois? Imediatamente, uma delas se apaga. As cortinas da outra balançam. Furtiva mão que abre uma fresta entre nós e esquiva-se de volta à sua noctívaga privacidade. Viste-me, sombra irreconhecível à luz do dia? É provável, pois invadi o teu íntimo com as setas que desprendi dos meus olhos na tua direção. Fizeste-me o mesmo. Guardemos segredo, já que partilhamos este mútuo anonimato. O cigarro a torcer-se no cinzeiro, um último suspiro a espalhar-se, fugaz fumo branco, o calor em silêncio. Que mentira dizer que a cidade dorme.

Puzzle doméstico

Meu apartamento está tão revirado. Uma bagunça de guerra. Espero que depois de o ter desmontado para a faxina eu consiga juntar outra vez todas as suas partes. Fazer o quê? era necessário. Eu tinha restos de mundo nas dobras das peles do sofá. E muito do passar do tempo incrustado nas frestas e dobradiças da natureza morta que há em toda casa. Enfim. O que me resta após este desmonte senão brincar com um puzzle imenso nos intervalos do trabalho? Pena que são poucos, como os de toda a gente.

Noite olhos da casa a dentro

tumblr_mhwo7alKPB1qjayaoo1_1280As janelas escancaradas, a noite entrando pelos olhos da casa a dentro, silêncio quase absoluto. Espera. O pulsar do meu coração. Som a ribombar no eterno. É isto que estou a ouvir, este ritmo. Minha harmonia interna intacta. Sempre. Conquistada no durar do corpo e recebida de braços abertos entre tantos sorrisos de lado desde o meu pai e em mim como herança. Viver é uma alegria. Poder olhar a nossa história pessoal de frente, cara a cara, e regozijar-se. E isto a me perguntar em que estou a pensar. Eu? em dormir um sono de anjo. Aliás, pensar? Eu vou é fazer. E a noite, faça-me o favor, que se vá despedindo antes que a última janela se feche. Até breve.

Logo depois de dar os nomes

11dez2012---um-homem-caminha-com-seu-cao-em-bristol-no-reino-unido-1355238184529_956x500Meu braço suspenso no ar e a mão em forma de garra a apontar para o Farruco. Ele deve considerar tal gesto uma espécie de anúncio do fim do mundo ou o prenúncio da sua morte ou o mais terrível e indesculpável xingamento. É no que se traduz para mim a sua resposta. Salta, rosna, contorce-se todo. Mas se rapidamente desço a mão e faço festas na sua cabeçorra, logo aquieta-se e fecha os olhos em agrado. Trinta vezes o mesmo gesto; trinta vezes, incansavelmente, a mesma reação. Um homem uma aldeia um cão, ser bicho ser gente natureza ao mesmo tempo, alegria. Adão em seu quintal. Paraíso.